O HOMEM ERRADO

“Eu sou Alfred Hitchcok. No passado, eu lhes dei vários tipos de filmes de suspense. Mas desta vez eu gostaria que vissem um filme diferente. A diferença está no fato de que este filme é uma história real, palavra por palavra. Mas o mais importante é que ela contém elementos mais estranhos do que toda a ficção existente em muitos dos filmes de suspense que fiz antes”.
Essa introdução do próprio diretor – a cena inicial, em uma dramática introdução – dá a exata dimensão de seu objetivo ao dirigir esse filme. Não é um filme de suspense, como muitos outros do mestre, mas é uma pequena obra-prima, uma espécie de 8.ª Sinfonia de Beethoven entre obras maiores e de maior repercussão. Sem dúvida, é o mais comovente de todos os que ele dirigiu. Mas nem por isto não assustador.
A abordagem de um erro judiciário (aqui este só não chegou a se consumar por uma questão de tempo) refoge aqui ao libelo trivial dos filmes da espécie, para o que concorre, além da sujeição à verdade, a época em que ocorreram os fatos: 1953.
Prepondera o respeito, mais do que o temor, à autoridade, os policiais nova-iorquinos eram menos truculentos, a religiosidade do personagem principal e de sua família atuam como uma espécie de moderador de animosidades, dificilmente aceitável hoje.
Quando o personagem principal, um tocador de baixo de um sofisticado clube de Nova Iorque (Stork Club, em cujo interior foram realizadas algumas tomadas), casado e pai de dois filhos, é acusado de furtos e roubos praticados por um sósia, desencadeia-se um processo de muda revolta mas, ao mesmo tempo, de crença na justiça e na impositividade da inocência. Mesmo com a previsão de um desfecho desfavorável.
A estrutura familiar, até então comum e harmônica, começa a ruir. A mulher, interpretada por Vera Miles, sucumbe a um exacerbado e infundado complexo de culpa que a leva à depressão e a internamento em um sanatório (foi usado o verdadeiro nas locações).
O filme, rodado em preto e branco, é linear. O enredo é clássico, com início, meio e fim, nessa ordem, e não há surpresas maiores guardadas para qualquer momento. Segue-se o ritmo da vida de então e as reações só são surpreendentes porque extraídas da vida real e não da imaginação de um escritor. Não há sobressaltos nem imprevisibilidade. É quase um documentário. Aliás, segundo consta dos extras, Hitchcock chegou a pensar em fazer um documentário e não um filme sobre os fatos.
Ninguém, hoje, em sã consciência, em que os espíritos são dirigidos para a reação voluntariosa e impensada, agiria da forma serena que os personagens principais agiram. Hoje, também, principalmente em Nova Iorque, há meios investigativos mais sofisticados e talvez o equívoco fosse desfeito logo.
Mas a força do filme está fixada exatamente nessa realidade hoje quase surrealista, em que alguém é acusado equivocadamente de crime e reage de acordo com a lei: aguardando a decisão judicial, se que se antevê punitiva, mas sem perder a fé de que a verdade, a final, venha à tona e tudo se resolva de acordo com a lei e com a devoção dos personagens.
Henry Fonda faz o papel do contrabaixista Christopher (Manny) Balestrero, numa interpretação contida e adequada ao personagem, suas crenças e seu modo de vida. Talvez não seja um papel difícil porque não há cenas ou ocasiões em que se exija trejeitos e caretas nem esforços típicos de um herói.
Mas, talvez, por isto mesmo, tenha sido um papel trabalhoso. Às vezes é mais fácil interpretar um personagem caricato e saído da imaginação de um bom escritor do que uma pessoa comum do povo. Assim como a realidade, quase sempre, é mais assustadora que a ficção – e isto o filme demonstra com magistral competência.