CAZUZA: NA LINHA DOS FILMES NACIONAIS

O Dogman que me inspirou este post quando escreveu, há algum tempo, sobre o Cazuza (aqui). A culpa, portanto, é dele. Nada demais. O que mais se faz neste país é redirecionar responsabilidades. Os revólveres são culpados pelas mortes, as camas pelos estupros, o bingo pela lavagem de dinheiro, a corrupção pelas CPIs e estas pela corrupção, num círculo vicioso e viciado, e assim por diante.
Nunca apreciei a música do Cazuza. Não é do meu estilo. Nem gosto de filmes nacionais porque os acho muito amadorísticos. Então detestaria a união: Cazuza e filme sobre ele.
Para quem descende de trentino – por exemplo – ver O Quatrilho e gostar só pode ser um ato de condescendente benevolência ou uma definitiva demonstração de pouco amor à Arte. Aturar o Caetano Veloso cantando “Mérica, Mérica” é pretender que o bel canto seja transformado em cantiga de roda. Suportar a Gloria Pires, com feições indígenas, representando uma “taliana” é tão verossímil quanto a Dercy Gonçalves no papel de Santa Luzia.
Sobre o filme do Cazuza rodou pelos ares cibernéticos um e-mail escancaradamente desanimador, referindo a péssima mensagem que o filme deixa, consagrando um escroto como um exemplo a ser seguido. Não vi o filme. Não sei se é verdade. Mas no Dogman acredito e ele de certa forma confirma, em parte, isso daí. E se ele não gostou do filme é porque realmente se trata de algo de discutível valor artístico. Tenho referências quase diárias sobre o pensamento dele e por isto consegui identificar que temos muitos gostos em comum. Para começar, ambos somos corintianos e isto já é um excelente indicativo: a dor dos que sofrem une e enriquece.
Eu gostaria muito que filme brasileiro fizesse sucesso. Mas em cima de bons enredos, boas filmagens e de um mínimo de profissionalismo. Não a custas de ícones. O O Quatrilho ficou muito artificializado. Há artistas mais críveis, mais populares ainda que menos conhecidos, que poderiam retratar com mais fidelidade a evolução daquele retângulo amoroso? E por que, por exemplo, ao invés do Caetano Veloso suavizando exageradamente o “Mérica Mérica” – que é mais um hino de guerra e do que uma canção de amor – não se utilizou um coro de um dos inúmeros círculos trentinos que há neste Sul enorme, resguardando ao menos um pouco a originalidade?
No Brasil não se busca a qualidade. Você liga a televisão no horário nobre – o das novelas – e vê sempre as mesmas caras, às vezes com alguma caracterização diferente. Mas são os mesmos. Não vejo novelas. Mas tenho a impressão que venho vendo uma mesma, há trinta anos, em que o Lima Duarte – por exemplo – é o mesmo Zeca Diabo, às vezes mais às vezes menos bem vestido. Então se procura o cinema, para ver algo diferente, e as mesmas caras estão lá. Isto cansa!
A nossa crítica especializada aceita tudo. Basta o filme ser brasileiro, revelar tendência de esquerda, ou atacar pelo menos um pouquinho os militares, que a crítica o considera merecedor do Oscar. Vai-se ver e é a mesma josta de sempre. Lembram de “Sargento Getúlio”, já que falei de Lima Duarte (que considero um ator apenas bom)? Pois naquele filme eu vi o Zeca Diabo na tela grande, só que fardado: os mesmos cacoetes, a mesma fala entrecortada, os mesmos trejeitos.
Então está tudo combinado. Não gostava do Cazuza, que era chato mesmo, com a vozinha irritante de quem precisava de exercícios de fonoaudiologia para se aprimorar, mas não era sério o suficiente para respeitar o público e fazê-los, nem gosto de cinema brasileiro.
Não sou condescendente. Não vou dizer que um filme brasileiro é bom, se ele não me agrada, apenas porque é brasileiro e eu também sou. Não sou adepto da teoria de que vivemos a época do gosto pela mediocridade, embora este blog possa ser um exemplo definitivo dela.
Obrigado, Dogman. Você me livrou da obrigação de ver um filme sem que eu tenha que sentir remorso por isto...
Transcrito do www.dellandrea.zip.net ( Jus Sperniandi) |